25 de janeiro de 2011

A porta está aberta

Entre.

 Acenda a luz. Sente-se na cadeira, olhe os papéis e mexa neles o quanto quiser. Jogue todos no chão ou amasse aqueles que não gostar. Escolha uma caneta ou escreva alguma coisa com o lápis. As estantes estão cheias de livros, escolha pela capa ou pelo título. Cada um faz de um jeito.

Abra a janela, derrube os quadros da parede ou quebre todos os enfeites. Vá outra vez até a janela e grite, fale um palavrão se tiver vontade. Ou não faça nada. Apenas entre e olhe. Aqui você pode fazer o que quiser. Só há uma coisa que você não pode fazer enquanto estiver aqui: não ser!

Saia.

Se achar que vale, volte. A porta continuará aberta...

24 de janeiro de 2011

Se...*

O Choque e o (re)encontro.

– Poxa, moço desculpa! Eu sempre fui desajeitada, droga!
– Não foi nada, aposto que água não... Hellen?
– Aposto que água não mancha, era isso que ia dizer, não era?
– Hellen? Meu Deus, Hellen!
– (Voz de boca seca) Tudo bem, Sérgio?
– Faz tanto tempo. Você continua igual! Não...
– É, treze anos, Sérgio! Não, não. Mudei, fiquei velha. O tempo passa mais rápido pras mulheres.
– Soube que você casou e virou mesmo dentista. Eu continuo fazendo minhas roupas. Encontrei um sócio. A gente tem uma loja em Londres.
– (Suspiro) É, casei. Quem te contou?
– Adriana, a gente se encontrou no Recife, ano passado. Férias.
– Adriana? Ela foi ao meu casamento pra dizer que eu não devia!
– (Aquele nó no estômago) Você tá feliz Sergio? Você é feliz?
– Eu tenho uma vida tranqüila com a Denise.
– Feliz?
– Eu tenho que buscar... Foi bom te ver, Hellen. Agora eu...
– Tchau Hellen.



Cada um deles viveu aquele momento de um jeito. Ela tinha a sensação de encontro, já que não foi ao Barnney’s naquela noite. O Sérgio foi e quem o recebeu  foi uma longa espera. Saiu acompanhado da decepção. Sete meses depois se casou com, sua amiga e colega de turma, Denise.

Depois daquele dia no restaurante, foram semanas atormentadas para um e para o outro. Hellen queria estar mais inteira depois de tudo, gostaria de estar com alguém. Sérgio queria ter dito que era feliz. Porque, de verdade, era. E queria ter falado da filha, mas na hora só conseguiu pensar se teria sido mais ou menos feliz. 


*Recortado  e livremente adaptado do filme 'Amores Possíveis', de Sandra Werneck

21 de janeiro de 2011

Cem dúvidas

Não quero ser o dono da minha história,
Dispenso a função de ser o escritor.

Se for espetáculo, que seja em corres.
Para estar na coxia ou sentado na platéia ser ator.

Quero um drama-comédia, quase tragédia
Onde todas as minhas verdades são rumores

Serei pela vida como um papel em branco.
Em vez de empunhar a caneta,
Ter o privilégio de ser apenas letra.

Para ser enunciado, poema inacabado. Um conto.
Cantiga de ninar, roteiro adaptado.
Filme que não ficou pronto.

De um todo, que eu seja em parte, o necessário.
Para me tornar qualquer coisa, onde caiba o mundo.
Ser herói, bêbado, palhaço, nobre senhor. O vagabundo.

Dentro de um relicário, a invenção de uma criança.
Espaço imaginário, contraditório e delírio. O mais profundo.

14 de janeiro de 2011

Covarde

Eu queria ter visto
Eu devia feito
Mas eu sempre desisto
Falta de coragem, culpa
Puro.  Simples. Defeito.

De todo, não passo de um pobre
De viver só e estragar o mundo
Não há em mim algo nobre, objetivo
Antes que a terra me leve
Enquanto há um céu que me encobre
Mesmo por sorte me entregue
Serei de mim fugitivo

Quero dizer que é injusto
Que não devia ser assim
Tem gente que se arisca,
Refaz-se do susto.
Não sobra nada e eu?
Quero tudo, sim!
Sem pôr a cara na porta, no fim.

Tenho esse direito, me proteger.
Quem cuida da minha ferida
Se ela abrir-se de novo?
Ninguém viria aqui, nem chegaria perto
Queria ver.
Eu fiquei, enfrentei a língua maldita do povo

Porque é fácil fazer esse papel
Fingir que sou eu, bancar o juiz
Não me cabe, sou o réu.
Trancado em mim, infeliz.

Sou culpado sim,
O espelho me olha, tripudia e depois diz:
– Tem o nome dela aqui. Beatriz.
– Você não presta!
– Era em mim que ela escrevia: eu te amo
– Era mais que tudo no mundo.
– Quem vai te tirar do fundo?
– Sem ela, por quê? Traiu. Olha em volta, vê.
–Tudo registrado, ainda dá pra ler.

12 de janeiro de 2011

O Divórcio

Daquele amor de faz tempo,
Ele não tem saudade, só tem lembrança.
Apesar da perda e da separação,
Coisas de dar a saudade que dói.
Jamais machucaria assim o amor de criança.

Ela veio pra despedida,
Quase que só deu tempo de anunciar:
– Já estou de partida!
– Não faz isso comigo,
– Não vai embora, eu te amo!
– Não chora!

Tão pouco tempo antes, Fábio e Mariana.
Antes até de um segundo beijo
Casaram-se, jurando amor eterno
Sob a catedral, que fica lá no quintal,
O pé de amora.
– O beijo já pode ser agora?

O pai da noiva era soldado,
Não avisaram o Fabinho, coitado!
Ele ia pra outro quartel, foi transferido.
Se Mari pudesse, tinha escolhido.
Não deixava pra trás o marido.

A noiva se foi...
Deixando um pobre noivo desolado.
Tudo por acontecer,
Inclusive o terceiro beijo prometido
– Não foi dado!

4 de janeiro de 2011

Nublado

Dia quando chove é pra lavar.
Chuva quando vem é pra levar.
Todo pingo d’água de refazer,
Um pedaço de terra que receber.
Mesmo sem saber que razão que é essa
Espera pelo Sol, com sua luz de promessa.

A cada dia novo, horas seguem sem pressa.
A vida continua...
Quem fecha esse espetáculo?
Nuvem de antes, obstáculo.
Agora se faz moldura, pra ela.
A Lua.

10 de outubro de 2010

Daquilo de ser o que se é

Eu teria ido se soubesse o que dizer. Não fui embora porque era mais fácil ficar e botar a culpa nela.

Acordava todos os dias e pensava onde seria o melhor lugar. O que me deixava ali não era a covardia, mas a culpa que me consumiria se estivesse só comigo, em qualquer parte. Eu teria de encarar o fato de que não haveria mais ninguém a quem culpar. A culpa foi toda minha.

Quando a conheci, já sabia quem eu era. Passei pela Rua das Palmeiras e a vi. Que sorte a minha, ficava ali o cartório do Seu Antônio Bento e ficava ali a casa dela. Desde o primeiro dia, me mostrei e vi que ela reparou. Eu me mostrava, ela olhava e sorria.

Ela saiu da janela de madeira da casa dos pais para a prisão que eu criei para nós, à Rua João de Almeida Campos. 17, no bairro do Laranjal. Eu me apaixonei por ela, eu a amei desde o segundo instante, porque no primeiro tudo ficou confuso com a sua beleza.

Foi no dia 23 de março de 1958. Entramos pela porta da frente da nossa casa, eu a carreguei no colo, como tinha que ser – tanto que fizemos isso duas vezes. A minha vontade era levá-la no colo pelo resto da vida. Tê-la era garantia de felicidade, eu a queria sempre perto e só pra mim. Com ela tinha toda a certeza, mas medo de tudo.

Eu fui capaz de enfrentar o mundo para que pudéssemos viver o nosso o amor. Só não fui capaz de me libertar do ciúme. Não consegui perceber que aquela mulher extraordinária era do mundo, quem nasce como ela, com alma de artista nunca é de uma pessoa só. Gente assim tem que espelhar arte por aí. Infelizmente, não fui capaz de entender que se a deixasse dançar para todo mundo, ela seria cada vez mais minha.

Desde o começo eu sabia quem eu era. Hoje, sete anos depois de sua morte, sei mais ainda quem eu sou. Eu sou Maria Antonieta de Andrade que amou por toda a vida Margarida Peçanha da Costa. Perdão por ter te amarrado com o meu ciúme. É por isso que hoje escrevo, para contar ao mundo da nossa história. Para que todos saibam… Para que todos saibam quem são, para que todos ajudem a propagar a voz de toda forma de Amor. Em memória do dia em que nos carregamos no colo para entrar na nossa casa.


Antonieta Andrade Peçanha da Costa
de 11 de julho de 2005 para todo o sempre de
um amor verdadeiro.