21 de agosto de 2012

Até que se prove o contrário

Que seja proferida a sentença e que valha cumprir a pena. Porque o caminho da absolvição o condenou a uma vida sem pecados. Tão somente, tornou-se capaz de alguns delitos. Cometidos contra si mesmo. Culposos, mas, com intenção de matar qualquer quebra de expectativa criada sobre o futuro? Não, toda insegurança adquirida serve de testemunha e foi convocada para depor. Dolosos, duplamente qualificados: pela covardia e pela omissão. 

Em sua ficha corrida consta ainda a acusação de obstrução da lei de viver em conta própria. Também foi preso em flagrante por estelionato. Especializou-se em falsificação de angústias e dores, substituídas por alegrias de fabricação duvidosa. 

Foi levado ao tribunal na condição de réu e vítima, para um julgamento onde a culpa assume ares de juiz. O advogado do diabo, único que aceitou trabalhar no caso, sustenta a tese de que seu cliente cometeu apenas o deslize de manter suas fraquezas em cárcere privado. 

– Neste caso, não há crime e, muito menos, algo que mereça a classificação de hediondo. O que existem são atitudes que podem ser consideradas odiosas e de natureza racional. Ninguém é obrigado a produzir provas contra si. Por isso, meu cliente preferiu o silêncio. Afinal, todos têm o direito de permanecerem calados. 

Mas, tudo o que não disser pode e será usado contra ele. O acusado ensaia agora o drama de se declarar inocente, mesmo diante de tantas evidências. Se for condenado, a opinião pública espera que o veredito traduza a claque, que se ouviu a todo o momento, vinda do júri: “Além de fugitivo, ficou alheio à própria condição de semiliberdade”. 

17 de agosto de 2012

Maré

Nem foi por acaso
que, naquele dia,
desejou que a luz do sol
fosse embora mais cedo.
Talvez o medo.

Mas, tem dias
que a lua não quer chegar.
A lágrima não vem inteira,
seca dentro dos olhos e se esvai.
Deixando só vontade, sem chorar.

O sentimento é sincero, mas
a alma não está  leve,
a mente não se fez livre,
o corpo não foi entregue
e o coração não virou mar.




3 de agosto de 2012

Moonlight particular

Acorda...
Vai pra vida, o mundo
não é seu e nem deve ser.
Abraça suas responsabilidades
do mesmo jeito que abraçaria um amigo querido
e tira aconchego dos seus deveres.
Aproveita o dia e vai.

Quando chegar a noite, pára
e olha um instante pro céu.
Vez em quando, tem  lua completa
e vestida  de renda.
Ela também não é sua, mas,
quando você repara, ela está lá
só pra você.

31 de julho de 2012

Nasceu um desalento em mim
que é quase um desacato.
Eu preciso é do desatino do sim
porque confesso tudo pra dentro e, no fim,
o meu apego pelo não, é desabafo.

A fruição do mundo se faz em des-contato
e eu, que nasci desatento assim,
percebo o não-dito, o não-feito, o não-fato.
Mas me esqueci do tempo, fui no vento
e, nesse descompasso, perdi o sapato.

Porque eu sou feito de terra de firme, guiado pelo razão
quero ver quem diria
se não sou firme
de pés descalços, liberto a minha alma
na poesia
voo sem sair do chão.




26 de julho de 2012

'Mudaram as estações...'
E, aonde elas foram, fica longe de mim.
Eu fiquei, pra ver o tempo passar.
"....tão árido.. que não faz diferença alguma entre chuva, vento, ou calor abrasador"

17 de julho de 2012

2 versos e um inteiro

Vive pro lado de dentro,
não aquilo que é segredo,
 mas as coisas que ainda são metade.


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14 de julho de 2012

E todas aquelas vezes que a meteorologia alertou sobre a velocidade do vento, não serviram para nada. De repente, a medida que passa a valer é algo que fica entre a leveza e o peso da falta de ar. Tudo em volta some, a gente sufoca e passa a desejar, ardentemente, qualquer sopro.

Algo além do desespero, achar que é bem melhor estar olhando para o furacão do que o vácuo. É assim que se sente, preso dentro de coisa alguma e em nenhum lugar. A indiferença com que ele tem tratado a vida anestesiou a passagem dos dias, mas não serve de remédio para a dor.

E o pior de tudo é sentir saudade de si mesmo. Ele se abandou já faz tanto tempo. "Pra que buscar recaída, reviver o drama, mexer na ferida? Por onde se engana o coração, se encontra a saída pra vida".  Deixa pra lá, esse tempo morto. Passado com a mesma pressa com que se usa as gotas pra contar. Achando que se guardava do mundo, perdeu-se nesse jeito lento de se desperdiçar.